O Grande Órgão da Matriz de Itu

Tristão Mariano da Costa

 

Era o dia 22 de Abril de 1883, um domingo, quando pela primeira vez ouviu-se o coro de vozes da música paroquial acompanhado pelo admirável instrumento, que , de há muito fazia os sonhos dourados do nosso atual vigário o Revmo. Padre Miguel Corrêa Pacheco, sacerdote sempre zeloso e incansável nos melhoramentos da instrução em sua terra natal; já com a fundação dos colégios para ambos os sexos, já com a criação da música paroquial para abrilhantar o culto em sua paróquia, dotando a matriz com um patrimônio em ações da Companhia Ytuana, com um relógio de alto preço, com um para-raios, e com sinos novos no valor de oito contos de réis!... A este benemérito ituano devemos a aquisição do grande órgão para nossa matriz, cuja maravilha bem poucos sabem e podem avaliar.


O instrumento do qual vamos dar uma breve notícia no Almanach do Sr. Lisboa, foi comprado em Paris, a pedido do padre Miguel, pelo nosso ilustre conterrâneo o Sr. João Tibiriçá Piratininga na fábrica de Aristide Cavaille-Coll, por 22 mil francos, que, com as despesas de armação, exceto alfândega e frete de Santos a Itu, ficou em treze contos de réis.


A grande caixa do órgão apresenta uma frente de estilo gótico, alta, e do mais delicado entalhe em madeira érable, para maior beleza e complemento de sua elegância. O mecanismo e todas as peças foram construídas com materiais de primeira escolha e ajustadas com precisão, são de admirável perfeição, cuja análise deixamos de fazer minuciosidade, atendendo aos fins e limites de um almanaque. Uma manivela move os grandes foles que enchem-se de vento para a produção do som, com válvulas de segurança e um pêndulo que precisa e visivelmente marca a quantidade de ar contido em seus reservatórios.


Este órgão compõe-se dos seguintes jogos:
1º teclado, Grande órgão de ut a sol
Registros
1º - Bourdon – 16 pés – 56 notas
2º - Montre - 8 pés – 56 notas
3º - Flute harmonique – 8 pés – 56 notas
4º - Prestant – 4 pés – 56 notas
5º - Bourdon – 8 pés – 56 notas

 

2º teclado, Recitativo Expressivo – de ut a sol
Registros
1º - Cor de nuit – 8 pés – 56 notas
2º - Viole da Gambe - 8 pés – 56 notas
3º - Voix Celeste 8 pés – 56 notas
4º - Flute-octaviant – 4 pés – 56 notas
5º - Trompettes – 8 pés – 56 notas
6º - Basson-hautbois – 8 pés – 56 notas
7º - Clairon – 4 pés – 56 notas

 

3º teclado, Pedais a tirasse, de ut a fá, 30 notas
Este teclado não tem jogos particulares, mas por um mecanismo especial faz soar todos os jogos dos dois teclados das mãos, podendo o organista fazer ouvir cento e vinte notas em um só acorde!
Pedais de combinação
1º - Tirasse do grande órgão
2º - Tirasse de Recit. Expres.
3º - Cópula dos teclados
4º - Reprise dos Trompette e Clairon
5º - Expression do Recit.
6º - Tremolo

 

Neste admirável e portentoso instrumento pode o organista hábil, sabendo usar convenientemente dos registros, e sendo dotado de uma feliz organização, que possua o dom inventivo das múltiplas, variadas e difíceis combinações musicais, fazer ouvir e imitar o longínquo ribombar da tempestade, que se anuncia pelo surdo, trêmulo e proceloso trovão: o bramido das ondas encapeladas que vêm se quebrar nos combros da praia: o sibilo estridente da ventania, que com medonha saraivada nos açoita os telhados e vidraças; o rodar belicoso da artilharia, produzido pelos batimentos das notas subgraves; o poético, mágico e amoroso som da flauta, da viole de gambe, da voix-celeste, de cor-de nuit, do oboé, da corneta, do fagote, do contra-baixo e outros instrumentos de uma grande orquestra; o crescendo e diminuindo; o pianíssimo da mais delicada surdina, até o fortíssimo de uma banda marcial.


Tais são os imensos recursos de que dispõe um organista neste instrumento.
O órgão, sendo o primeiro na ordem dos instrumentos músicos, elevou-se acima de todos pela imponência de sua majestade e gravidade de seus sons religiosos. Próprios pra chamar-nos ao recolhimento e à oração, espalhando miríades de notas de diversos timbres no ambiente que nos rodeia, embalsama nosso coração de certa unção mística que arrebata-nos, fazendo logo cair na meditação e pensar na pequenez da terra, na grandeza do céu, na brevidade do tempo, na duração da eternidade!... Singular instrumento que a malícia humana ainda não pôde prostituí-lo nas bacanais como eco de suas orquestras.


Inventado pelo padre Gregório, de Veneza, em 826, chegou a este extraordinário aperfeiçoamento, que faz pasmar em nossos dias os mais famosos físicos pelos efeitos desconhecidos e contraditórios, que a ciência moderna ainda não pôde explica-los, cujos fatos assombrosos, pela teoria dos acordes dissonantes, fazem emudecer a razão diante daqueles que a acústica nos revela.
Presentemente é organista e mestre da Capela, José Mariano da Costa Lobo, nosso sucessor, que por suas habilitações e gênio fertilíssimo já está um executor digno de ser ouvido, e que faria honra a qualquer capela das cidades mais adiantadas no culto católico, que tem sabido elevar o gosto da música religiosa ao mais alto grau de perfeição, como em tempo algum se ouviu na matriz de Itu; tendo uma grande e variada coleção de peças dos melhores autores estrangeiros e nacionais; sendo ele o primeiro mestre de capela que trabalhou e com grandes esforços conseguiu uma execução em Itu, por ocasião da Semana Santa, do grande Stabat Mater, de Rossini.

 

Terminando esta breve notícia sobre o órgão da matriz, damos nossos sinceros parabéns ao povo ituano, pelo digno vigário que dirige sua paróquia, e que, vivendo pobremente para dar tudo aos seus paroquianos, tem a alma para Deus, e o coração para a humanidade.

 

Itu, 29 de julho de 1884

*Extraído do Almanach Litterario
de São Paulo, 1885,
editado por José Maria Lisboa