Música e Cultura Religiosa em Itu III

Luís Roberto de Francisco

 

O interesse pela produção de música religiosa ituana, em tempos de colônia, só se tornou relevante a partir do contato com as obras deixadas pelo Padre Jesuíno do Monte Carmelo, até agora o mais antigo compositor conhecido em Itu. Jesuíno foi alvo de estudo acadêmico por Mário de Andrade, na década de 1940, considerado enquanto pintor, arquiteto e músico-intérprete.

 

Andrade quase nada conseguiu de concreto sobre o ofício de compositor do padre mulato, a não ser vagas citações de memorialistas. O estudo, porém, é extraordinário no que trata da pintura. O reencontro com a obra musical de Jesuíno se deu com o musicólogo Regis Duprat, nos anos de 1960.


Jesuíno Francisco de Paula Gusmão chegou a Itu no último tempo do período colonial, a passagem do século XVIII para o XIX, época de renovação cultural nos hábitos, no ambiente, na formação e nas artes, refletindo a riqueza local constituída ao longo das décadas de 1760 a 1800, que veio vingar o período de pobreza da caça ao ouro. As personagens que enriqueciam na zona rural, com seus engenhos de açúcar, planejavam, palmo a palmo, um cenário para sua atuação sócio-cultural; elegeram a vila para exibir a notoriedade econômica que conquistavam.

 

As transformações vieram rápidas, com igrejas novas, alguns sobrados, casas maiores e quase bonitas, escolas, frades mestres ensinando nos conventos, imagens religiosas importadas nos padrões vigentes na metrópole, já tempo de rococó, pintura decorativa, douramento dos altares, referências maiores desse tempo que abrigou o jovem mulato santista Jesuíno, nascido em 1764. Entre os patrocinadores dos devaneios artísticos destacam-se dois ituanos: Padre João Leite Ferraz, construtor da matriz ituana e Maria Francisca Vieira, mecenas da decoração do templo.


A arte, para a elite local, se tornou instrumento de diferenciação, argumento de excelência para exibir o capital adquirido nos engenhos, para fortalecer a cultura religiosa; o exibicionismo, que o Barroco tão bem proporciona, serviu para pôr em evidência seus haveres, sua notória economia. Os artistas, por sua vez, se aproximaram de regiões promissoras, buscando patrocínio. Havia muitos radicados em Itu nesse tempo: escultores, pintores, santeiros, douradores (os papéis se confundiam), músicos e compositores.

 

Precisavam de investimento para viver da sua arte, maioria deles mulatos forros, libertos de sua origem através do talento, o qual utilizavam para sobreviver, para serem aceitos (alguns eram respeitados como intelectuais nos círculos restritos da vida da elite) ou para corresponder à sua fé. Elite e artistas superavam a situação social anterior através da arte.


Para compreender o papel de Jesuíno nesse contexto vejamo-lo em três momentos distintos, que se integram em processo de amadurecimento: o inaugural, ainda em Santos, o outro em Itu, tempo de aprendizado, casamento e família e o último também em Itu, continuação do que viveu em São Paulo, depois de viúvo, quando se tornou padre.


Do primeiro tempo, conhecemos alguns aspectos que tocam à sua formação. Duprat, em seu Garimpo Musical, nos traz o ambiente santista, no tempo do menino Jesuíno: mestres de música do convento carmelita, de quem o compositor afirmou ter sido aprendiz e possível ligação com um certo André de Moura (que viveu até 1809 pelo menos), mestre de capela e de banda. Aproveita para rever a descendência de músicos desse caiçara, seis filhos vivendo do mesmo ofício do pai: uma organização familiar de ensino, produção, e interpretação de música na vila santista, uma rede empresarial, envolvendo-os em um “negócio de família” de tocar e cantar em celebrações religiosas de cunho público (festas de irmandades) ou privado (funerais, sobretudo).


Qual teria sido a formação de Jesuíno em Santos? Que instrumento teria aprendido tocar? Que nível de leitura e interpretação atingira? Ele mesmo nos conta que estudou o ofício de organista no convento carmelita: “No tempo dam.ª rapasiada emq morei nesse V.ª eno qual freqüentei mto. esse convto. que VRm.ª hoje governa, pois nelle aprendi musica, e tocar órgão comhu Religioso antigo q nelle havia(...)” .

 

Quem seria o religioso, seu mestre? Difícil dizer. Quanto ao ofício de organista, era fundamental no universo da música religiosa, pois o órgão e o harmônio são os instrumentos mais comuns para acompanhar o coro e para sustentar o canto do povo. Nada diz, Jesuíno, de André de Moura, mas é possível que tenha se inspirado naquela organização familiar de músicos, pois constituiu grupo similar em Itu, com seus filhos músicos e agregados, como bem notou Duprat.

 

Haveria estudado harmonia, contraponto, os rigores maiores da solfa e as regras da composição? Sabemos que andou copiando umas obras, que não consigo entender se eram de autoria de seu mestre ou simplesmente lhe pertenciam: “sucedeo q por falta de conciencia nesse tempo, pois hera rapaz apanhei do meu Padre Me. alguas poucas musicas q naquele tempo ele estimava, eq hoje nada valerião; ainda depois de me passar pª. esta Villa em que moro ainda mandei por hu condiscípulo, copiar outras, isto haverão 30 annos pouco mais oumenos, do que hoje tenho remorsos por ser feito tudo sem oconcentimto. dop dº Pe. Me.”

 

Copiar partituras era conhecido recurso de aprendizado naquele tempo, mas vejo que se tratou de uma rapaziada, da qual se arrependeu na maturidade. Mais tarde acusou-se do delito de ter as transcrito sem autorização do legítimo possuidor (ou compositor?). Nenhuma outra informação.


No segundo tempo de sua vida, em Itu, vamos encontrá-lo fazendo uso de seus dotes musicais. Em 1793 (ano em que enviuvou) passou recibo por seus dois discípulos Francisco de Paula e Joaquim Duarte Novaes a 14 de agosto, pela execução da música fúnebre nas exéquias de José Manoel Machado Caldeira. Joaquim Novaes não é outro senão o nascido em Itu em 1779, filho de Joaquim Duarte Rego e Izabel Novaes de Magalhães e que se tornaria endinheirado sacerdote, segundo relata Nardy Filho, pela herança que recebeu de seus ascendentes e cuidou de capitalizar no desbravar do sertão de Araraquara.

 

Diz também Duprat que Novaes viveu com Jesuíno e seus agregados no sítio do Pirajebu (ao lado do convento franciscano) em 1812, portanto fazendo parte da rede de atividade musical liderada pelo santista. Vê-se que, por este tempo, de finzinho do XVIII, Jesuíno Francisco de Paula Gusmão, além do ofício de pintor e decorador, também se ocupou do ensino da música, pois seu pupilo, contando apenas catorze anos (1793), já se exibia nos sufrágios do finado Caldeira.

 

Até aqui nada temos, ainda, do Jesuíno compositor, porém vemos sua atividade enquanto mestre de música, professor de instrumento e intérprete, afinal, atividades que se misturavam em terra de pouca recorrência a pessoal qualificado.

 

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