O mui saudoso Professor Luizito

Maria Lúcia A. de Marins e Dias Caselli

 

Antes de findar-se o ano de 1988, o pavilhão cor de anil do “Regente”, numa triste tarde do começo de dezembro, foi mais uma vez hasteado a meio pau.

 

Qual acorde harmonioso mas inesperado, destinado a encerrar sonoro trecho musical, despediu-se da vida o professor Luiz Gonzaga da Costa Júnior.


Velado em sua sala pessoal e predileta, no meio dos apetrechos de som, pautas de música, discos, fotos e fitas de gravação, ausente o velho violino, lá estava ele, com a dignidade costumeira, entre as mais estimadas lembranças.

 

A última visão material que guardo de sua presença entre nós, reflete o que sempre nele vi – o exemplo de ordem e harmonia.

 

Afastando qualquer forma de dissonância, o ouvido fino, a alma sensível, estava predestinado ao equilíbrio e à simetria. Infenso aos exageros, às disritmias, fez da trajetória de sua vida um calmo deslizar pelos meandros da sonoridade, através dos caminhos da disciplina que se impôs.


Professor exigente, começou a lecionar Música e Canto Orfeônico no antigo Ginásio do Estado local, hoje “Regente Feijó”, substituindo outro, o também saudoso Nhonhô Tristão, que a tradição artística ituana consagrou e cultua.

 

Jovem ainda mas de físico débil, encontrou na força de um caráter enérgico a medida de exigência pela qual se notorizou e se fez respeitar pelos alunos.

 

Todavia, com a convivência, o temor reverencial dos primeiros contactos vai se transformando em estima e admiração generalizada pelo competente mestre de Música.


Sua aluna de 1ª Série Ginasial à última do Curso Normal, guardo dele as recordações mais gratas. Professor laborioso e organizado, jamais tolerou qualquer espécie de indisciplina que pretendesse afastar a aula do ritmo adequado.

 

Minha turma do velho Ginásio muito precocemente obteve prova dessa sua característica intolerância.

 

Certa feita, um bom grupo de meninas resolveu ingressar na sala de aula com a gola do uniforme vestida ao contrário. Tratava-se do famoso costume “à marinheira” saia e gola cor de vinho e blusa branca, então traje oficial das ginasianas.

 

O bloco de “gola virada”, conforme se intitularam, composto de numerosas colegas, desejando manifestar algum tipo de protesto, cujo enredo não me ocorre no momento, embora esteja a me lembrar, e bem, da conseqüência...

 

As três aulas iniciais, de tarde, se sucederam sem que os professores até então se ocupassem do visual diferente de parte das discípulas, embora manifestassem alguma estranheza.

 

Entretanto, quando o sinal anunciou a aula de Música e o Professor Luizito ingressou na sala com a pontualidade costumeira, foi um “Deus nos acuda”!

 

Ele, dedo em riste, apontando aluna por aluna de uniforme desalinhado, mostravam-lhes a porte de saída, naquele gesto bem característico de “pôr para fora da classe”.

 

Assim conhecemos muito cedo o famoso “compasso binário” mencionado pelo saudoso Deputado Arquimedes Lamoglia, também seu ex-discípulo, cujo primeiro tempo consistia em apontar o aluno e o segundo em mostrar-lhe a porta de saída.


Sob sua competente regência a escola abrigou um dos mais harmoniosos orfeons do interior do Estado. Inicialmente de vozes mistas, mais tarde somente de normalistas. Soavam nos ouvidos os acordes dolentes da “Barcarola” de Offenbach ou o ritmo vibrante do Canto do Pajé, do nosso Heitor Villa-Lobos.

 

Quanto aos hinos pátrios acredito que todos os seus discípulos, mesmo os destituídos de qualquer vocação musical, devem tê-los aprendido e bem, sob a égide de sua batuta. Até mesmo o metrônomo era acionado para que o andamento correto fosse observado do começo ao fim.


A Orquestra Sinfônica de Itu foi outra de suas realizações artísticas.

 

O grupo homogêneo, composto dos melhores instrumentistas locais comparecia para abrilhantar as festividades de então, principalmente os memoráveis eventos do Regente de outrora, nos quais se ouvia desde a “Pompa e Circunstância” da abertura, passando por belíssimas pelas clássicas até o momento lírico da “Ausência Cruel” e o apoteótico Hino do Ginásio, que o público acompanhava vibrando e cantando!

 

Exímio violinista, muitas vezes trocou a batuta pelo instrumento que chorava de sentimentalismo, sobe seus dedos esguios.


Tive a honra de ser letrista em duas composições de sua autoria, o Hino do IBAO e a Canção da Guarda Mirim, além de haver feito, a seu pedido, várias versões musicais para o Orfeão do Normal, então já modernizado quanto ao repertório.

 

Nessas ocasiões, reconheço, não foi fácil adaptar-me ao seu espírito perfeccionista pois muitas vezes me devolvia as letras, pedindo que substituísse palavras que não alcançavam a acentuação musical adequada.


Sei também que seu acervo de compositor ainda guarda relíquias de inspiração e invulgares, inclusive uma linda valsa cuja partitura me havia prometido para que lhe pusesse letra, no momento em que estivesse disposto a me contar qual a fonte de inspiração.


Muito mais haveria que falar neste meu preito de saudade em sua memória. Mas para consolo da pranteada ausência há o conforto de saber que, como bom e fiel cristão, deve sentir-se bem onde está.

 

Porque na simetria dos céus, não há espaço para desarmonias.