Uma das jóias da Casa Cavaillé-Coll
O Órgão de Itu

D. Evandro Antonio Correia

 

Como o piano, o órgão também tem seu nome, sua marca, seu fabricante. Orgulhamo-nos muitas vezes da marca de nossos pianos – Steinway, Pleyel, Grotrian, Baldwin, Schimmel. Esquecemos que possuímos um órgão que muitas igrejas e comunidades européias invejariam.

 

Já na segunda metade do século XIX, por volta de 1883, devidamente instado o Grande Órgão Cavaillé-Coll da Matriz de Itu, sendo seu primeiro organista titular José Mariano da Costa Lobo, encantava ituanos e as gerações que viriam.

 

Em sua viagem pela Europa e Estados Unidos, o Vigário-Mecenas Pe. Miguel Corrêa Pacheco, tomou contato com a realidade dos locais visitados e trouxe para seu mecenato as melhorias a serem executadas e, uma delas foi a compra de um Órgão tubular para sua Matriz.

 

Aristide Cavaillé-Coll (1811-1899) era o mais importante construtor de órgãos do século XIX e, o será do mundo pelas suas inovações no caráter sonoro dos instrumentos que construía.

 

O registro – uma série de tubos dispostos em ordem cromática, que possui um determinado timbre e uma determinada altura – tornou-se independente; isto proporcionou uma ampliação dos sons harmônicos.

 

O órgão da nossa Matriz possui a Flauta Harmônica, registro inventado por ele, capaz de sustentar individualmente um acompanhamento de peça coral. Cavaillé-Coll foi também um grande pesquisador sonoro, atendendo às novas exigências dos músicos e das orquestras que estavam se aperfeiçoando, modificando e ampliando.

 

O som bem mais brilhante dos órgãos, no período de 1550 a 1800 (Alemanha, Itália, França, Ibéria) tornar-se-á agora sinfônico; haverá reforços nos registros oscilantes, nos principais, e as lingüetas serão como uma fanfarra a chamada “bateria de lingüetas”, como grande personalidade no conjunto.

 

Os registros básicos – Flautas – estarão em maior número. Introduziu com maior efeito a Caixa Expressiva no manual Recitativo, possibilitando expressões fabulosas.

 

Discordo da maneira técnica sobre o assunto para tentar explicar novamente a JÓIA que a cidade possui. Sob os cuidados da Igreja o órgão apresenta todas as inovações sonoras e artísticas que ituanos como Tristão Mariano ouviram, pois executar a sua música no mais moderno órgão do mundo nos traz a certeza da fidelidade da interpretação de suas composições, bem como as de Elias A. Lobo.

 

O Cavaillé-Coll da Matriz da Candelária é original até nossos dias. Sistema totalmente mecânico, tendo um gerador elétrico de ar (foles por compensação) ele ainda mantém antigo gerador de ar manual, quer dizer, em uma eventual falta de energia elétrica, a música está garantida, como aconteceu comigo em certa ocasião.

 

O acionamento dos registros, como do teclado, é feito por meio de varetas em forma de alavancas ainda originais, tornando a tração do órgão, em certas ocasiões, pesada. Mas o organista já deve estar acostumado ao toque do instrumento.

 

É normal este pequeno peso, que é ajustável, porém o Cavaillé-Coll da Matriz também possui outra inovação neste sistema, a chamada alavanca Barker, deixando mais leve o teclado.

 

Na seção mais importante do órgão, seu coração, temos os tubos (registros) originais. Ali estão os arcos (oscilantes) as flautas, os principais e a famosa “bateria de lingüetas”. Para a Casa Cavaillé-Coll, o órgão da Matriz de Itu é classificado como Órgão de Coro.

 

Não possui registros independentes para a pedaleira, tendo que acoplar ao pedal registros dos manuais. Para o organista que conhece órgão, isto não é problema. Os registros acima descritos são distribuídos em dois teclados manuais, sendo o teclado da pedaleira e cópula.

 

O som do Cavaillé-Coll é mais “doce” no que diz respeito a órgão de tubos. É claro, quando se usa o Tutti General, seu som é brilhante e muito forte, mas sem comparação a um órgão com características alemãs.

 

A madeira usada para sua construção é carvalho da melhor qualidade, marfim, ébano, e madeiras próprias para a feitura de tubos como o Bordão 16’. Ainda temos a Caixa Expressiva, com a qual conseguimos tirar efeitos de chocar o sistema nervoso, instalada no segundo manual – Recitativo.

 

Descrevo agora a disposição dos registros:
1º manual – Grande Órgão: Flautas – Bourdon 8’ e 16’, flute harmonique 8’. Principais – Montre 6’ e Prestant 4’.

 

2º manual – Recitativo: Lingüetas - Clairon 4’, Trompette 8’, Hautbois et Basson 8’, Arcos – Viole de Gambe 8’, Voix Celeste 8’, Cor de Nuit 8’. Flautas – Flute Octaviante 4’.
Pedal tirasse dos manuais (cópulas).

 

Demais acessórios: acoplamentos do 1º e 2º manuais, Chamada das Lingüetas, Tremolo e Caixa Expressiva do 2º manual.

 

Meu intuito é deixar a comunidade mais consciente e, de certa forma, que ela valorize mais a potência cultural da nossa cidade. Músicos de nível muitas vezes não são prestigiados em seus concertos.

 

Ouçamos com maior interesse nossos músicos e instrumentos. Apreciemos o som de nosso órgão que está com sua manutenção em dia. Tudo em nossa Matriz faz mostrar que as gerações que vieram antes de nós fizeram muito pela cidade.

 

Continuemos nós também esse trabalho religioso-cultural de preservar nosso patrimônio arquitetônico, musical, religioso e o próprio valor da nossa gente.

 

 

D. Evandro Antonio Correia foi organista na Igreja matriz de Itu e regente assistente do Coral Vozes de Itu. É Doutor em Direito Canônico e Monge Beneditino em Roma.