A Noite de São João
micro-ensaio de estética comparada


Luís Roberto de Francisco

 

Em 26 de junho de 2009 o Museu da Música – Itu abriu a mostra intitulada A Noite de São João, 150 anos da primeira ópera brasileira. O evento, realizado em conjunto com o Sistema Estadual de Museus, se deve à grata efeméride da história da música brasileira, que marca data cheia relacionada à obra de Elias Álvares Lobo, ituano que, em 1859 escreveu a música para um libreto de José de Alencar. A obra ingressou com louvor na história pátria por ter sido pioneira quanto à temática, iminentemente regional, o primeiro libreto escrito por um brasileiro, em língua portuguesa e musicado também por gente daqui.


Na ocasião da festividade dezenas de descendentes do compositor, bisnetos e trinetos, maioria vivendo fora de Itu, se reuniu para apreciar a mostra e ouvir os trechos inéditos que o Coral Vozes de Itu apresentou. A partitura original, preservada durante cento e cinqüenta anos em arquivos privados agora se torna pública, pela doação feita por seu último guardião, Eliseu Belculfinè, ao Museu da Música – Itu.


Tive a honra de transcrever alguns trechos da ópera em linguagem musical da atualidade. Em breve a partitura toda estará disponível para consulta pública patrocinada pelo Instituto Cultural de Itu.


Mais que uma efeméride, a comemoração marca um momento importante para a cidade de Itu, em particular, e para a cultura paulista, de maneira geral, pois se trata da descoberta de mais um conjunto de elementos que identificam aqueles que vivem neste século XXI com seu passado e possibilitam a compreensão da trajetória da nossa cultura até chegar a nossos dias; mostra capítulos anteriores de nosso saber fazer. Este passado revelado não deve significar um lugar a atingir novamente, pois ele existe em nossa memória e em nossa história para conhecermos não para vivê-lo. Pelo contrário, os elementos da história devem despertar a construção inteligente dos próximos passos, que cabe aos atores atuais. Mas não se pode caminhar destemido sobre alicerces da ignorância. Ao tornar público um conteúdo passado, ao possibilitar à sociedade o contato com suas raízes, instituições culturais, como o Museu da Música – Itu, desejam que documentos, imagens, composições musicais, obras de arte, literatura, enfim, o patrimônio permaneça vivo, para servir de parâmetro entre aquilo que fomos e que o queremos ser, reduzindo nossa alienação.


O texto de José de Alencar, escrito em 1857, intitulado A Noite de São João, é uma comédia, inicialmente em um ato e, posteriormente em dois, esta última musicada por Elias Lobo, em Itu. O autor, José Martiniano de Alencar (1829-1877), nasceu no Ceará. Teve alguma intimidade com obras literárias que valorizavam a vida sertaneja, lidas na juventude, antes de ingressar no curso de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo (1844 a 1850). Nessa época, na capital paulista, a cultura erudita era praticamente restrita ao Seminário da Luz, marcada pelo proselitismo católico, e ao ambiente acadêmico, onde os artífices do pensamento político se confundiam com os críticos e apreciadores da atividade literária e artística, liberais.


José de Alencar, polêmico estudante, era exponencial crítico do Romantismo literário em voga no Brasil, a chamada primeira fase da corrente literária, de forte representação idealista da vida, na reprodução da cultura portuguesa. A literatura brasileira de autores como Gonçalves de Magalhães e Martins Pena, ao mesmo tempo se concentrava no indianismo e na vida urbana como retratos do Brasil. A busca por uma identidade nacional, excluiu a vida real por uma visão eurocêntrica da cultura e completo afastamento de questões sociais ou culturais ligadas a outros extratos da sociedade brasileira, como as camadas menos favorecidas.

A geração de Alencar, de sua parte, vinculou-se à busca de outro nacionalismo, desejoso de representar um Brasil que preconizava independente. Empenhou-se em uma literatura menos alienada, que retratasse dramas de amor da vida burguesa, costumes e valores brasileiros, inspirados na vida cotidiana, portanto mais próxima da realidade do patrimônio cultural brasileiro.

Alencar optou pela ficção em forma de romance, como linguagem para sua produção, por ser um gênero “moderno e livre”. De sua obra destacou-se, na temática indianista, O Guarani.


Mesmo pouco participativo do ambiente boêmio, das rapaziadas dos acadêmicos paulistas, foi nele que Alencar conheceu aspectos da vida interiorana do Sudeste e as tradições culturais paulistas. Após viver em São Paulo o escritor foi para o Rio de Janeiro, onde, em 1857, era fundada a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, por vontade do Imperador Pedro II e iniciativa de um fidalgo espanhol, D. Jose Amat. A primeira edição do libreto d’A Noite de São João, veio à luz para uma “ópera comédia em um ato”. A fábula se passava no Rio de Janeiro em 1805, “então colônia, em época de abusões, de prejuízos, de crenças e tradições profundas, ainda não destruídas pela civilização (...)”, como caracteriza o autor. Aqui demonstra o desejo de articular a vida cotidiana a tradições culturais.


Assim se refere ele ao texto que produziu para enredo: “é o que há de mais simples e de mais natural naqueles tempos de boas crenças que já lá vão. É uma lenda muito conhecida sobre a noite de S. João. Em Portugal a flor sibilina era a alcachofra, tão cantada por Garrett e pelos outros poetas portugueses; mas a crença popular lá e aqui no Brasil dava a mesma virtude a outras plantas, sobretudo ao alecrim, talvez pela facilidade de transplantar-se por galho, o que fazia que a sorte agradasse a todos. (...)

 

Vê-se, claramente, a intenção de aproximar o argumento da fábula à realidade brasileira, dos mitos locais.


Outro ponto interessante é a liberdade que Alencar lega ao compositor, própria do autor novato, que tem clareza da estrutura frágil que construiu para ser musicada. Quanto às regras artísticas deste gênero de composição, segui as que me pareceram melhores e muitas vezes a imaginação; entretanto, podem ser modificadas ao gosto do professor que escrever a música.


Seu libreto despretensioso, o insere em outro gênero, em voga em seu tempo, a ópera. O cearense deixa claro não conhecer exatamente os rigores da versificação dos libretos, mas não quer perder a oportunidade de projetar sua campanha pela literatura também ao campo da composição musical lírica, versando a temática nacional.

 

 

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