A Noite de São João em dois tempos


Totonha Lobo

 

Quando menina, em férias na casa de minhas tias em São Paulo, gostava das reuniões dominicais de final da tarde, quando meus avós maternos que moravam em Santos, subiam a serra e recebiam os parentes. Eram sobrinhos, filho, nora, irmã e cunhado, também irmão de meu avô, sobrinhos, primos, netos e assim a casa ia enchendo para um lanche no início da noite.


Eram tantos os parentes que meus irmãos e primos, já rapazotes, diziam que os reunidos naquela sala juntavam pelo menos uns três mil anos. Uma querida tia, casada com o irmão caçula de minha avó, alegrava a reunião atendendo aos pedidos da platéia, tocando chorinhos ao piano. Alguns adultos às vezes cantavam. Nós, crianças, dançávamos, brincávamos e escutávamos as músicas, as histórias do pai de minha avó, meu bisavô Maestro Elias Álvares Lobo.


O dia 26 de junho passado (2009) lembrou-me muito esta cena: aquelas crianças, moçoilas, rapazes e alguns dos rapazotes que faziam contas, juntando a idade dos parentes, éramos nós. Reunidos na cidade de Itu para uma homenagem ao meu bisavô maestro. Passamos naquele momento a ser as parcelas das somas e fatores nas multiplicações dos três mil anos que eram contados anos atrás. E, ali estávamos na sala de entrada do Museu da Música - Itu, aberto ao público, com uma mostra sobre a vida de meu bisavô maestro.


Ali assistimos a uma impecável apresentação de trechos da primeira ópera brasileira, A Noite de São João, composta por ele, com o Coral Vozes de Itu, organizado na imponente escadaria e regido pelo maestro Luis Roberto de Francisco, estudioso da vida e obra de meu bisavô.


Na ocasião tivemos a oportunidade de doar ao Museu um Memorial, encontrado nos “guardados” de minha mãe, escrito de próprio punho, por meu bisavô, e uma imagem barroca de São José de Botas, da qual eu era herdeira, por tê-la recebido de presente de minha avó. A doação aconteceu por acreditarmos que conhecimento deve ser democratizado e não privilégio de alguns.


Além de estar ali vivendo e trocando lembranças inesquecíveis de outrora, entre os bisnetos, com a mesma alegria resgatamos para trinetos e tetranetos, presentes ou não, a memória de uma pessoa que viveu para criar músicas com temas bem brasileiros.


A sesquicentenária ópera A Noite de São João e muito de sua obra vem sendo divulgada, há quinze anos, pelo incansável trabalho do maestro Luís Roberto de Francisco e do maravilhoso Coral Vozes de Itu.


Fico feliz em ter participado de tão emocionante encontro familiar e por acreditar e lutar também, neste lugar onde moro, por ações de resgate e promoção de programas culturais.