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OFICIO DE TREVAS

Teatro Sacro da Paixão

Evandro Antonio Correia

Ao iniciar esta explanação, gostaria de destacar que o rito católico do Ofício Divino, aqui comentado, é aquele anterior às substanciosas reformas litúrgicas operadas pelo Concílio Ecumênico Vaticano II! O objetivo é mostrar a estrutura litúrgica da qual se escreveu a música para essa Liturgia Oficial da Igreja Católica.
A Semana Santa contém muitos símbolos que, hoje, passam despercebidos. Um rito que tem chamado atenção, atualmente, é o Matutina Tenebrarum (em latim). Também conhecido como Ofício de Trevas, é a liturgia pertinente à Paixão de Cristo, que existe (no formato como a conhecemos) desde o século XIII e que usa a simbologia das luzes de velas.

Desde os tempos apostólicos os primeiros cristãos se recolhiam em oração durante certas noites particulares, especialmente aquelas entre o sábado e o domingo, especialmente na Páscoa e na festa dos Mártires. Para o mundo antigo o início do dia era ao crepúsculo do dia anterior. Assim, o cristianismo manteve a antiga concepção do nycthemeron, o início do dia litúrgico ao anoitecer precedente, conforme narra o Livro da Gênesis 1,5: «Deus chamou à luz “dia” e às trevas “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia». De modo que a primeira oração do dia (as Vigílias) era feita durante a noite, o motivo da «antecipação».

No rito romano, dos tempos antigos, esta longa vigília de oração noturna era organizada em duas partes as quais podiam ser unidas ou separadas: o ofício durante a noite (exatamente os Noturnos) e o Ofício da Manhã (as Matinas) que se cantava ao despontar do sol. Na origem o termo matinas indicava unicamente o rito ao amanhecer. Todavia, o uso de cantá-lo em seguida aos Noturnos levou a incluí-lo no conjunto do Ofício das Vigílias (noturnas), sendo chamado, por fim, Ofício das Matinas. Assim, posteriormente, o Ofício da Manhã acabou por mudar o nome para Laudes.

Com o decorrer do tempo, o Ofício de Trevas modelou-se dessa maneira:

Vigílias (as Matinas): 3 noturnos e cada noturno contém 3 salmos, 3 lições e seus 3 responsórios prolixos (totalizando: 9 salmos, 9 lições, 9 responsórios);

Laudes: 4 salmos e 1 Cântico do Antigo Testamento, o Benedictus (Cântico de Zacarias) com antífona, a Antífona Christus factus est e a Oração conclusiva.

Assim, o Officium Tenebrarum (seu outro nome em latim), indica o ofício noturno dos três últimos dias da Semana Santa, chamado de Tríduo Sacro.

E o nome trevas alude a três contextos:

 

As trevas naturais, do crepúsculo ao alvorecer;

As trevas litúrgicas, a penumbra durante a cerimônia ao apagar-se das luzes;

As trevas simbólicas, da Paixão, lembrando as palavras de Cristo: haec est hora vestra et potestas tenebrarum («esta é a vossa hora e do poder das trevas» – Lc 22,53).

Assistimos, desse modo, a Paixão conforme a teologia bíblica descreve os acontecimentos e os sofrimentos de Jesus nas horas que antecederam seu julgamento e sua execução.

Outro significado, segundo uma concepção mística popular da Idade Média, é aquele que considera como o «período das trevas» o horário compreendido entre a meia-noite e o primeiro cantar do galo – tempo em que os demônios estariam livres para andar pelo mundo, distinguindo a escuridão (ausência física da luz devido ao período noturno) das trevas (condição para a propagação do mal).

Então, cantar a liturgia do Ofício de Trevas se caracteriza uma cerimônia peculiar. Sobre um grande candelabro triangular, o Tenebrário, colocado perto do altar, do lado da Epístola, flamejam quinze velas de cera amarela. Ao final de cada salmo do ofício e a retomada de sua antífona, se apagam, uma por vez, as candeias, exceto uma, a última no cume. A décima quinta vela simboliza a solidão de Jesus Cristo, abandonado aos poucos, pelos doze apóstolos, por Maria Madalena e por Maria de Cléofas (as velas apagadas no decorrer do ofício). Após o Cântico de Zacarias (o Benedictus), ao retomar de sua antífona, esta última vela é retirada do cume do candelabro e colocada sob o altar. E permanece escondida durante o canto do Christus factus est, do Miserere (salmo 50) e da Oração final Respice, de modo que toda esta parte final do ofício é celebrada na escuridão. Uma vez terminado, se faz um grande fragor (o efeito sonoro se torna mais dramático nas antigas igrejas com seus assoalhos de madeira) por todos os que participaram ao ofício. O período em que a vela permanece atrás do altar representa o tempo em que Cristo baixa ao túmulo para reaparecer em luz e esplendor. Assim, ela que permaneceu acesa durante todo o rito é, então, trazida novamente às vistas do público e recolocada no lugar mais alto do candelabro das Trevas, anunciando o fim do Ofício de Trevas, e a persistência da luz de Cristo entre nós.

Não obstante pequenas diferenças locais, o Ofício de Trevas é «antecipado» e sempre cantado unindo as Matinas com as Laudes em um só ofício. Cantam-se, então, as Trevas de Quinta-feira santa ao anoitecer de quarta-feira; as de Sexta-feira santa ao anoitecer de quinta-feira; as do Sábado santo ao anoitecer de sexta-feira. Outro motivo para a «antecipação» é a duração desse ofício! Pois ele é apenas uma parte de um todo: da grande representação sacra dos mistérios salvíficos da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

 

Então, o Ofício de Trevas compreende o esquema dos Noturnos e das Laudes, como descritos. Vale destacar os textos das lectiones (lições-leituras) oriundas das Lamentações de Jeremias e da Oratio sobre Jerusalém (o pranto pela falta de conversão do povo escolhido). E mesmo em canto gregoriano, produziram-se melodias diversificadas, conforme a escola predominante (beneventana, romana, Laon, S. Gallen, hispânica). As demais leituras cantadas são partes provenientes dos Comentários sobre os salmos de santo Agostinho (Sl. 54 e 63), da Primeira Carta de s. Paulo aos Coríntios (c. 11) e da Epístola aos Hebreus (c. 4; 5; 9).

Os Responsórios (além do canto gregoriano), são as partes que mais se produziram obras musicais, a polifonia se mostrou frutuosa, pois, a perpetuidade do cristianismo católico, ocorrendo com a história, nos brindou com todos os períodos musicais, contribuindo com a carga dramática (um acento importante para o Ofício de Trevas) em que a cena sacra da Paixão se apresenta:

Feria Quinta in Coena Domini

Última Ceia, Jardim das Oliveiras, Prisão.

Feria Sexta in Parasceve

Jesus é julgado, arrastado ao Calvário, crucificado e morre.

Sabbato Sancto

Sepultura e lamentos.

E, diante do progressivo apagar das luzes da igreja e das velas, o simbolismo do luto da Igreja Católica se acentua diante morte de seu Senhor.

A parte final do Ofício de Trevas possui diferentes versões. Como o de apagarem as luzes da igreja de trás para frente, de modo que ao longo da cerimônia a igreja fica progressivamente na escuridão, deixando apenas a região do altar iluminada. Em outras igrejas, juntamente com barulho ou o bater dos pés (o fragor), que simboliza o tremor na morte de Jesus, são também repicadas as matracas para aumentar o impacto sonoro. Ao retorno da vela acesa e sua recolocação no Tenebrário, não se recita o Miserere (salmo 50) e as luzes da igreja são acesas; em outros o templo permanece às escuras, iluminado apenas pela vela, enquanto o povo se retira em silêncio após o término da liturgia (simbolizando que naquele momento domina o luto da escuridão da morte de Cristo, mas na esperança e fé – a pequena chama – que se tornará esplendor de iluminação no Domingo de Páscoa).

O repertório das antífonas e dos responsórios, destas três jornadas litúrgicas, é já presente nos mais antigos testemunhos do rito romano. Algumas fontes são o Antifonário de Compiègne (de Carlos, o calvo, ano 870) e no Antifonário de Hartker (Abadia de San Gallen, Suíça, ano 1000). E esta estrutura é, então, presente (de forma idêntica) no Breviário de s. Pio V (ano 1568), do Concilio de Trento e que se vinculou até o Concílio Vaticano II. Um antifonário é uma coleção composta pela música e pela letra cantada, e serve para indicar os trechos bíblicos para serem usados nas celebrações. Independentemente das incalculáveis traduções e usos dos textos bíblicos e litúrgicos, estas obras ainda servem como referência para a Igreja Católica – ao organizar seu Ano Litúrgico.

Nunca o Ofício de Trevas, ou melhor, a celebração de toda a Liturgia da Semana Santa, foi exclusiva de uma ordem religiosa, mas um dever universal da Igreja. Sendo uma Oração Oficial, ela era rezada-cantada com afluência de fiéis na intenção de congregá-los, ainda mais, na vivência dos mistérios cristãos. Além das catedrais, onde os bispos e o cabido oficiam, as paróquias se organizavam com tal objetivo. A questão aqui é a capacidade organizacional, orçamentária e a boa vontade das pessoas para fazê-lo: um bom pároco, fiéis interessados e envolvidos, músicos, armadores! E a nossa cidade de Itu não ficou atrás, fato é que as recentes transcrições, descobertas arquivísticas e apresentações musicais demonstram anos de exímia experiência nesse aspecto, pois é «uma amostra eloquente do que se produziu nos grandes centros do Brasil […], onde recursos e demanda permitiam, sem dúvida, a manutenção de um culto religioso muito mais ostensivo e suntuário» (Régis Duprat).

Para encarar a vida com mais leveza e esperança, momentos de reflexão e espiritualização são uma necessidade, mais do que uma opção!

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TRIBUTO AO ARQUITETO MAURO ARTHUR BONDI

Tardia foi a tomada de consciência do significado e valor histórico do Patrimônio Cultural do País, por parte do Poder Público e da intelectualidade, a permitir ainda no início do séc. XX o contínuo desaparecimento de nossa memória e identidade como Nação!

Tal inércia, contudo, viria a ser rompida na década de 1930, quando em São Paulo se avultam as diligências de Mário de Andrade, notável articulador para a criação de órgãos de preservação, em constantes diálogos com Rodrigo de Mello Franco, que se tornaria o primeiro Diretor do SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (depois denominado IPHAN), criado em 1937, no Rio de Janeiro, na gestão do Ministro da Educação e Cultura, Gustavo Capamema!

Essas importantes iniciativas foram se desdobrando em outras superintendências regionais, como foi a criação do CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, do Estado de São Paulo, em 1968!

Ainda por indicação de Mário de Andrade, o SPHAN promoveria o tombamento da Igreja de Nossa Senhora Candelária (1780) em 1938!

Itu viria a ser prestigiada com as constantes ações, de reconhecimento e valorização de seu extraordinário Acervo Patrimonial por parte do IPHAN e do CONDEPHAAT – entidades responsáveis pela preservação dos testemunhos históricos herdados por nossa geração, merecedoras, pois, de gratidão pelo povo ituano!

Mas nesse momento a cidade de Itu se enluta com o falecimento ocorrido no dia 12 p.p. em São Paulo, do Arquiteto Mauro Arthur Bondi, membro do IPHAN, onde atuou desde a década de 1970, a contribuir de modo valoroso pela preservação dos bens culturais paulistas, sobretudo aqueles da cidade de Itu!

O seu passamento coincide com as celebrações do 80º aniversário do tombamento pelo IPHAN, da Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária, em processo final de sua restauração, cujos trabalhos foram iniciados no ano 2.000, por iniciativa do Monsenhor Pe. Durval de Almeida e de um grupo de cidadãos ituanos, sob as orientações e desvelo do Arquiteto Mauro Arthur Bondi!

Recentemente pôde-se constatar o seu arrebatamento diante do esplendor desse templo colonial dos paulistas de Itu, certamente levado em seu coração!

Sensibilizadas homenagens da gente de Itu!

Deus o receba em sua bem-aventurança!

Jair de Oliveira

Itu, 13 de Março de 2019

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Uma das jóias da Casa Cavaillé-Coll
O Órgão de Itu

D. Evandro Antonio Correia

Como o piano, o órgão também tem seu nome, sua marca, seu fabricante. Orgulhamo-nos muitas vezes da marca de nossos pianos – Steinway, Pleyel, Grotrian, Baldwin, Schimmel. Esquecemos que possuímos um órgão que muitas igrejas e comunidades européias invejariam.

Já na segunda metade do século XIX, por volta de 1883, devidamente instado o Grande Órgão Cavaillé-Coll da Matriz de Itu, sendo seu primeiro organista titular José Mariano da Costa Lobo, encantava ituanos e as gerações que viriam.

Em sua viagem pela Europa e Estados Unidos, o Vigário-Mecenas Pe. Miguel Corrêa Pacheco, tomou contato com a realidade dos locais visitados e trouxe para seu mecenato as melhorias a serem executadas e, uma delas foi a compra de um Órgão tubular para sua Matriz.

Aristide Cavaillé-Coll (1811-1899) era o mais importante construtor de órgãos do século XIX e, o será do mundo pelas suas inovações no caráter sonoro dos instrumentos que construía.

O registro – uma série de tubos dispostos em ordem cromática, que possui um determinado timbre e uma determinada altura – tornou-se independente; isto proporcionou uma ampliação dos sons harmônicos.

O órgão da nossa Matriz possui a Flauta Harmônica, registro inventado por ele, capaz de sustentar individualmente um acompanhamento de peça coral. Cavaillé-Coll foi também um grande pesquisador sonoro, atendendo às novas exigências dos músicos e das orquestras que estavam se aperfeiçoando, modificando e ampliando.

O som bem mais brilhante dos órgãos, no período de 1550 a 1800 (Alemanha, Itália, França, Ibéria) tornar-se-á agora sinfônico; haverá reforços nos registros oscilantes, nos principais, e as lingüetas serão como uma fanfarra a chamada “bateria de lingüetas”, como grande personalidade no conjunto.

Os registros básicos – Flautas – estarão em maior número. Introduziu com maior efeito a Caixa Expressiva no manual Recitativo, possibilitando expressões fabulosas.

Discordo da maneira técnica sobre o assunto para tentar explicar novamente a JÓIA que a cidade possui. Sob os cuidados da Igreja o órgão apresenta todas as inovações sonoras e artísticas que ituanos como Tristão Mariano ouviram, pois executar a sua música no mais moderno órgão do mundo nos traz a certeza da fidelidade da interpretação de suas composições, bem como as de Elias A. Lobo.

O Cavaillé-Coll da Matriz da Candelária é original até nossos dias. Sistema totalmente mecânico, tendo um gerador elétrico de ar (foles por compensação) ele ainda mantém antigo gerador de ar manual, quer dizer, em uma eventual falta de energia elétrica, a música está garantida, como aconteceu comigo em certa ocasião.

O acionamento dos registros, como do teclado, é feito por meio de varetas em forma de alavancas ainda originais, tornando a tração do órgão, em certas ocasiões, pesada. Mas o organista já deve estar acostumado ao toque do instrumento.

É normal este pequeno peso, que é ajustável, porém o Cavaillé-Coll da Matriz também possui outra inovação neste sistema, a chamada alavanca Barker, deixando mais leve o teclado.

Na seção mais importante do órgão, seu coração, temos os tubos (registros) originais. Ali estão os arcos (oscilantes) as flautas, os principais e a famosa “bateria de lingüetas”. Para a Casa Cavaillé-Coll, o órgão da Matriz de Itu é classificado como Órgão de Coro.

Não possui registros independentes para a pedaleira, tendo que acoplar ao pedal registros dos manuais. Para o organista que conhece órgão, isto não é problema. Os registros acima descritos são distribuídos em dois teclados manuais, sendo o teclado da pedaleira e cópula.

O som do Cavaillé-Coll é mais “doce” no que diz respeito a órgão de tubos. É claro, quando se usa o Tutti General, seu som é brilhante e muito forte, mas sem comparação a um órgão com características alemãs.

A madeira usada para sua construção é carvalho da melhor qualidade, marfim, ébano, e madeiras próprias para a feitura de tubos como o Bordão 16’. Ainda temos a Caixa Expressiva, com a qual conseguimos tirar efeitos de chocar o sistema nervoso, instalada no segundo manual – Recitativo.

Descrevo agora a disposição dos registros:
1º manual – Grande Órgão: Flautas – Bourdon 8’ e 16’, flute harmonique 8’. Principais –Montre 6’ e Prestant 4’.

2º manual – Recitativo: Lingüetas – Clairon 4’, Trompette 8’, Hautbois et Basson 8’, Arcos – Viole de Gambe 8’, Voix Celeste 8’, Cor de Nuit 8’. Flautas – Flute Octaviante 4’.
Pedal tirasse dos manuais (cópulas).

Demais acessórios: acoplamentos do 1º e 2º manuais, Chamada das Lingüetas, Tremolo e Caixa Expressiva do 2º manual.

Meu intuito é deixar a comunidade mais consciente e, de certa forma, que ela valorize mais a potência cultural da nossa cidade. Músicos de nível muitas vezes não são prestigiados em seus concertos.

Ouçamos com maior interesse nossos músicos e instrumentos. Apreciemos o som de nosso órgão que está com sua manutenção em dia. Tudo em nossa Matriz faz mostrar que as gerações que vieram antes de nós fizeram muito pela cidade.

Continuemos nós também esse trabalho religioso-cultural de preservar nosso patrimônio arquitetônico, musical, religioso e o próprio valor da nossa gente.

D. Evandro Antonio Correia foi organista na Igreja matriz de Itu e regente assistente do Coral Vozes de Itu. É Doutor em Direito Canônico e Monge Beneditino em Roma.

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Fórum Ituano de Museus

Luís Roberto de Francisco

Enquanto estudante, jamais fui levado a um museu pela escola, em Itu ou fora da cidade. As únicas excursões que houve foram para parques de diversão. Que escola era aquela?

Itu foi uma das primeiras cidades paulistas a contar com um museu de história. Em 1923 inaugurou-se o Museu Republicano “Convenção de Itu” para ser um “depositário da memória” do Partido Republicano Paulista (PRP), ao tempo, detentor do poder no Estado e na União. Desde aquele tempo se tornou “o museu” para Itu, local de referência, onde estava “guardada” a nossa história.

Mesmo vivendo em uma cidade chamada “histórica” (todas as cidades são históricas, porque cada qual tem a sua história!), nunca visitei o Museu Republicano na condição de aluno (nem no curso superior de História), mas por iniciativa familiar ou própria. Lembro-me da exposição antiga no Republicano: a mesa da Convenção, quadros, fardas, armas de fogo, sabres, enfim, elementos que chamavam a atenção de crianças. Não compreendia, porém o sentido de se preservar, nem mesmo exatamente o que guardava aquele museu-monumento que foi fechado em 1978, para reforma, e só reabriu em 1986. A gente olhava o acervo com um respeito quase sagrado, pois os objetos e documentos preservados representavam algo superior à condição humana, sublimados nas vitrines e no espaço do museu, como um relicário. No momento da reabertura do Museu Republicano, já vivíamos a poucos passos da Constituição de 1988 que trouxe enormes garantias de cidadania, como o direito à memória e ao reconhecimento da própria cultura. A criação do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus, em 20 de janeiro de 2009, trouxe nova perspectiva para as instituições.

Nas últimas décadas foram criados diversos museus e memoriais em Itu: o Museu e Arquivo Histórico Municipal de Itu – 1989, Museu da Energia – 1999, Museu da Música – Itu – 2007, Memorial da Santa Casa de Misericórdia de Itu, Memorial de Madre Theodora e Memorial do Convento do Carmo. Foram também renovados o Museu de Arte Sacra (1964) e o Museu do Quartel.

A presença de museus evidencia nossa necessidade de reconhecer no passado um significado para o presente. Denuncia também o desejo de ver preservado o patrimônio cultural, produzido em Itu, pelas mais diversas parcelas da sociedade, mesmo que a memória contida nas instituições ainda seja ligada às elites econômicas e culturais.

A perspectiva de transformar os museus de lugar sagrado em local de reconhecimento de cada um como cidadão, espaço lúdico, onde a memória revive e a construção da identidade cultural se faz, não é tarefa fácil. Trazer a comunidade é um desafio a vencer, para modificar aquela imagem que tínhamos dos museus de antigamente. Democratizar o papel dos museus, para preservar a memória de todas as parcelas da sociedade é uma mudança importante nos objetivos das instituições.

Durante a IX Semana Nacional de Museus, em maio de 2011, um encontro pioneiro reuniu agentes de museus de Itu, para apresentar e discutir ações educativas. Naquele momento nasceu a iniciativa local de congregar as unidades museológicas em torno de um Fórum Ituano de Museus.

O ideal é contar com a parceria de escolas e grupos constituídos, para promover ações educativas conjuntas, abrindo mais espaço nos museus para a sociedade. Por enquanto tem contado com participação efetiva dos museus Republicano, da Energia e da Música, que planejam a ampliação do Fórum para todas as instituições existentes na cidade.

O maior objetivo do fórum é criar situações que permitam maior abertura do espaço para a comunidade através de ações educativas, programadas em conjunto, para estudantes e para a comunidade em geral. Só assim os museus podem se transformar em lugares de saber e tornar viva a memória de toda a sociedade.

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Música e memória em Itu

Luís Roberto de Francisco*

2010 é o ano em que o Museu da Música – Itu, criado em 2007, tem dedicado mais tempo e recursos para a preservação e divulgação da memória da música local. Seu acervo, formado por partituras, documentos, instrumentos musicais está sendo organizado por uma equipe de profissionais voluntários.

Os museus, lugares de manutenção da cultura, das atividades das sociedades, do legado deixado por gerações passadas, que nos permitem conhecer as raízes do que somos hoje são lugares de estudo, de visita, de promoção de eventos, encontros que renovam nosso contato com a identidade cultural.

O Museu da Música – Itu tem se esforçado para ser um museu vivo, atuante, cujo acervo esteja preparado para pesquisa, para ser revelado à comunidade através de exposições, palestras, encontros culturais, ações educativas, entre outras atividades.

As coleções de partituras, em processo de organização logo estarão completamente prontas para utilização de músicos e pesquisadores, para a comunidade aprender mais, para rever seu passado, conhecer o que ainda não lhe foi revelado.

Em 2010 duas mostras foram abertas, A música na Igreja Matriz de Itu, em novo espaço, que relata mais de 300 anos do canto coral na cidade, e A Noite de São João, 150 da primeira ópera brasileira, que traz minúcias sobre a obra com a qual o nosso Elias Lobo estreou a música lírica em português, no Brasil.

Três concertos, com obras de músicos de Itu foram realizados, neste ano, durante a Semana Santa – A Paixão Segundo Itu, com patrocínio da empresa INDEMETAL e durante as cerimônias, o Ofício de Trevas (com a obra Matinas de Quarta-feira santa, de Tristão Mariano da Costa) e a Procissão de Passos, com os motetes de José Mariano da Costa Lobo, ambos apresentados pelo Coral Vozes de Itu com patrocínio do próprio Museu da Música – Itu.

Quatro concertos foram marcados para divulgar a obra Matinas do Menino Deus, do Padre Jesuíno do Monte Carmelo, patrimônio cultural brasileiro, em processo de tombamento, evento que reúne 50 músicos, entre coro, orquestra e solistas, em Itu, Sorocaba, São Paulo e Santos. Esta ação cultural, que parte do Museu da Música – Itu com apoio absoluto do SESC Sorocaba é o investimento de recursos e trabalho pelo reconhecimento do patrimônio musical pela sociedade atual.

Em maio, durante a VIII Semana Nacional de Museus, nosso museu realizou o Encontro Arte Colonial Ituana: a obra de Jesuíno do Monte Carmelo, evento inédito, que reuniu os maiores especialistas (USP, UNICAMP, IPHAN e do próprio Museu da Música – Itu) na obra do Padre Jesuíno, talvez o mais dinâmico artista do período colonial paulista, com obras em Santos, Itu e São Paulo. Esta é uma ação educativa que contou com a participação de mais de duzentas pessoas, entre universitários e comunidade. O apoio do SINCOMÉRCIO – ITU tem sido fundamental pela cessão do espaço e colaboração do seu pessoal. O encontro trouxe reconhecimento sobre a obra de arquitetura, pintura e música, do Padre Jesuíno, figura que merece destaque na história da arte brasileira.

Trazer o público ao museu é uma tarefa mais difícil, porque nós, brasileiros, não estamos habituados a esta atividade, porque as possibilidades de mostra do acervo ainda são limitadas, pelo espaço exíguo e condições materiais de exposição. Portanto as ações educativas revelam-se as atividades mais competentes para promover o contato entre jovens estudantes e seu patrimônio musical.

Trazer alunos ao museu sem previamente discutir com eles o significado do acervo e o que eles podem aprender, não faz sentido, não permite que o estudante se integre ao patrimônio, naquele processo olhar/ver/enxergar, neste caso, também ouvir/escutar/entender. Um projeto educativo desenvolvido pela equipe do museu, que será realizado a partir de agosto/2010 com escolas públicas estaduais de Itu, promoverá este primeiro passo na ligação entre jovens estudantes e o acervo musical ituano, enquanto patrimônio imaterial. O projeto, inteiramente patrocinado pelo próprio Museu da Música- Itu, faz dele uma instituição atuante, dinâmica, com amplo compromisso social e cultural, diminuind o a distância entre a população e o patrimônio que precisa ser revelado. Reduzir a alienação e permitir o acesso ao passado é criar meios para que aquilo que vemos e ouvimos faça tenha significado para nós.

Aqui não há outro recurso e vontade que não seja dos associados do Instituto Cultural de Itu, associação cultural sem fins lucrativos, única mantenedora deste museu.

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A Noite de São João
micro-ensaio de estética comparada

Luís Roberto de Francisco

Em 26 de junho de 2009 o Museu da Música – Itu abriu a mostra intitulada A Noite de São João, 150 anos da primeira ópera brasileira. O evento, realizado em conjunto com o Sistema Estadual de Museus, se deve à grata efeméride da história da música brasileira, que marca data cheia relacionada à obra de Elias Álvares Lobo, ituano que, em 1859 escreveu a música para um libreto de José de Alencar. A obra ingressou com louvor na história pátria por ter sido pioneira quanto à temática, iminentemente regional, o primeiro libreto escrito por um brasileiro, em língua portuguesa e musicado também por gente daqui.

Na ocasião da festividade dezenas de descendentes do compositor, bisnetos e trinetos, maioria vivendo fora de Itu, se reuniu para apreciar a mostra e ouvir os trechos inéditos que o Coral Vozes de Itu apresentou. A partitura original, preservada durante cento e cinqüenta anos em arquivos privados agora se torna pública, pela doação feita por seu último guardião, Eliseu Belculfinè, ao Museu da Música – Itu.

Tive a honra de transcrever alguns trechos da ópera em linguagem musical da atualidade. Em breve a partitura toda estará disponível para consulta pública patrocinada pelo Instituto Cultural de Itu.

Mais que uma efeméride, a comemoração marca um momento importante para a cidade de Itu, em particular, e para a cultura paulista, de maneira geral, pois se trata da descoberta de mais um conjunto de elementos que identificam aqueles que vivem neste século XXI com seu passado e possibilitam a compreensão da trajetória da nossa cultura até chegar a nossos dias; mostra capítulos anteriores de nosso saber fazer. Este passado revelado não deve significar um lugar a atingir novamente, pois ele existe em nossa memória e em nossa história para conhecermos não para vivê-lo. Pelo contrário, os elementos da história devem despertar a construção inteligente dos próximos passos, que cabe aos atores atuais. Mas não se pode caminhar destemido sobre alicerces da ignorância. Ao tornar público um conteúdo passado, ao possibilitar à sociedade o contato com suas raízes, instituições culturais, como o Museu da Música – Itu, desejam que documentos, imagens, composições musicais, obras de arte, literatura, enfim, o patrimônio permaneça vivo, para servir de parâmetro entre aquilo que fomos e que o queremos ser, reduzindo nossa alienação.

O texto de José de Alencar, escrito em 1857, intitulado A Noite de São João, é uma comédia, inicialmente em um ato e, posteriormente em dois, esta última musicada por Elias Lobo, em Itu. O autor, José Martiniano de Alencar (1829-1877), nasceu no Ceará. Teve alguma intimidade com obras literárias que valorizavam a vida sertaneja, lidas na juventude, antes de ingressar no curso de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo (1844 a 1850). Nessa época, na capital paulista, a cultura erudita era praticamente restrita ao Seminário da Luz, marcada pelo proselitismo católico, e ao ambiente acadêmico, onde os artífices do pensamento político se confundiam com os críticos e apreciadores da atividade literária e artística, liberais.

José de Alencar, polêmico estudante, era exponencial crítico do Romantismo literário em voga no Brasil, a chamada primeira fase da corrente literária, de forte representação idealista da vida, na reprodução da cultura portuguesa. A literatura brasileira de autores como Gonçalves de Magalhães e Martins Pena, ao mesmo tempo se concentrava no indianismo e na vida urbana como retratos do Brasil. A busca por uma identidade nacional, excluiu a vida real por uma visão eurocêntrica da cultura e completo afastamento de questões sociais ou culturais ligadas a outros extratos da sociedade brasileira, como as camadas menos favorecidas.

A geração de Alencar, de sua parte, vinculou-se à busca de outro nacionalismo, desejoso de representar um Brasil que preconizava independente. Empenhou-se em uma literatura menos alienada, que retratasse dramas de amor da vida burguesa, costumes e valores brasileiros, inspirados na vida cotidiana, portanto mais próxima da realidade do patrimônio cultural brasileiro.

Alencar optou pela ficção em forma de romance, como linguagem para sua produção, por ser um gênero “moderno e livre”. De sua obra destacou-se, na temática indianista, O Guarani.

Mesmo pouco participativo do ambiente boêmio, das rapaziadas dos acadêmicos paulistas, foi nele que Alencar conheceu aspectos da vida interiorana do Sudeste e as tradições culturais paulistas. Após viver em São Paulo o escritor foi para o Rio de Janeiro, onde, em 1857, era fundada a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, por vontade do Imperador Pedro II e iniciativa de um fidalgo espanhol, D. Jose Amat. A primeira edição do libreto d’A Noite de São João, veio à luz para uma “ópera comédia em um ato”. A fábula se passava no Rio de Janeiro em 1805, “então colônia, em época de abusões, de prejuízos, de crenças e tradições profundas, ainda não destruídas pela civilização (…)”, como caracteriza o autor. Aqui demonstra o desejo de articular a vida cotidiana a tradições culturais.

Assim se refere ele ao texto que produziu para enredo: “é o que há de mais simples e de mais natural naqueles tempos de boas crenças que já lá vão. É uma lenda muito conhecida sobre a noite de S. João. Em Portugal a flor sibilina era a alcachofra, tão cantada por Garrett e pelos outros poetas portugueses; mas a crença popular lá e aqui no Brasil dava a mesma virtude a outras plantas, sobretudo ao alecrim, talvez pela facilidade de transplantar-se por galho, o que fazia que a sorte agradasse a todos. (…)

Vê-se, claramente, a intenção de aproximar o argumento da fábula à realidade brasileira, dos mitos locais.

Outro ponto interessante é a liberdade que Alencar lega ao compositor, própria do autor novato, que tem clareza da estrutura frágil que construiu para ser musicada. Quanto às regras artísticas deste gênero de composição, segui as que me pareceram melhores e muitas vezes a imaginação; entretanto, podem ser modificadas ao gosto do professor que escrever a música.

Seu libreto despretensioso, o insere em outro gênero, em voga em seu tempo, a ópera. O cearense deixa claro não conhecer exatamente os rigores da versificação dos libretos, mas não quer perder a oportunidade de projetar sua campanha pela literatura também ao campo da composição musical lírica, versando a temática nacional.